A tabela do
Imposto de Renda não vai ser reajustada. Isso é quase um roubo. Se teve
inflação, se os salários sofreram reajuste, a correção tinha que ser
automática. É uma consequência lógica, não existe nenhuma explicação para
manter a tabela.
Com o
agravante que isso prejudica ainda mais a aplicação das alíquotas progressivas.
Se você não sabe como funciona a progressividade do imposto de renda, não
imagina como uma excelente solução se transformou em uma piada sem graça.
Até Obama
já quer aumentar o imposto dos mais ricos. Aqui também já se fala isso, mas o
discuso transmite uma sensação revanchista, como uma punição a classe alta. Ao
mesmo tempo, surgem rumores e o temor de aumento da alíquota do Imposto de
Renda, que poderia chegar a 35%.
Nada disso
enfrenta o problema de frente. O aumento de alíquota, por si só, não é o grande
vilão, muito pelo contrário. De fato, a progressividade deveria prever
alíquotas ainda superiores, de forma a proporcionar a cobrança justa para
todos, levando em conta a capacidade contributiva de cada um.
O problema
é que no Brasil... Tudo é mal feito, ou feito para beneficiar poucos e
prejudicar muitos. Deturpou-se completamente a finalidade do sistema e, como
sempre, sobra para a classe média pagar a conta.
No Brasil,
as pessoas que recebem os menores salários, ou não pagam nada ou muito pouco, o
que é totalmente correto. Por outro lado, com isso, o governo consegue manter a
gigantesca massa populacional de baixa renda sob controle, sem reclamar.
Já a
minoria de maior renda tem interesse na manutenção da cobrança da forma como é
realizada, pois egoisticamente se beneficia em pagar menos imposto do que seria
justo e solidário. O temor generalizado na população que a revisão e aumento de
alíquotas seria prejucial a todos contribui para que tudo fique por isso mesmo.
Quando na realidade não é bem assim.
Mas vamos
começar do começo. Não sou economista, nem tributarista nem nada, mas vou
tentar explicar da forma que entendo. Acredito que a maioria das pessoas não
compreende como funciona o sistema de alíquotas progressivas, que no Brasil,
infelizmente, serve apenas para massacrar a classe média.
Vamos
imaginar três pessoas, x, y e z, que recebem por mês, respectivamente mil, dez
mil e cem mil reais. Vamos representar a renda de cada um em montes de notas de
cem reais.
X, coitado,
tem um montinho com apenas dez notinhas. Cada uma dessas notas é importante
para que ele consiga sobreviver por mais um mês. Com se diz, seu dinheiro é
contadinho e qualquer quantia faz falta para pagar as despesas mensais com
moradia, alimentação, vestuário e por aí vai.
Se
retirássemos do monte uma notinha, o orçamento do mês ficaria comprometido. Cem
reais representa 10% de seus ganhos e X fatalmente não conseguiria pagar todas
suas contas. Teria que cortar algum gasto e até fome poderia passar. Para
satisfazer as necessidades básicas, X precisa de todo o valor quer recebe, ou
seja, não dispõe de nenhuma capacidade contributiva.
Já Y recebe
dez mil por mês, logo tem um monte com cem notas de cem. Y mora em uma casa
melhor, compra mais produtos no supermercado e roupas de qualidade. Tem gastos
bem superiores a X e mesmo assim consegue guardar dinheiro para trocar de carro
e fazer uma viagem no ano.
Se fosse
retirada de seu monte uma nota de cem reais, Y possivelmente nem perceberia. Mesmo
se retirássemos um valor equivalente a 10% de sua renda, sua vida não mudaria
muito. Talvez tivesse que economizar durante mais tempo para fazer a viagem
anual, mas nada que comprometesse seu orçamento. Y tem uma razoável capacidade
contributiva.
Por fim, Z
recebe cem mil reais por mês. Possivelmente, faz por merecer este rendimento, e
pode se dar ao luxo de ter uma casa excelente, comprar tudo do bom e do melhor,
possuir vários carros e viajar sempre que quiser.
Uma nota de
cem, num monte de mil notas, é um grão de areia na praia. Se for retirado do
monte cem notas de cem, ainda assim Z teria dificuldade de gastar todos os
restantes noventa mil reais que recebe a cada mês. Sua capacidade contributiva
é bem alta.
Ou seja, a
medida que a renda aumenta, diminui o “grau de necesidade” deste aumento. Se
para X, toda a renda era utilizada para necessidades básicas, Z não tem onde
enviar dinheiro!!!
Não há nada
de errado em buscar o maior rendimento possível, seja da forma (honesta) que
for, muito pelo contrário. Já está demonstrado que é dessa forma que o mundo
gira, a economia, a produção, o desenvolvimento dos países dependem da livre
iniciativa. As alíquotas progressivas não penalizam quem recebe mais, em hipótese
alguma uma elevação de renda vai resultar num rendimento líquido menor, devido
ao aumento do imposto.
Para
promover uma arrecadação com justiça tributária, levando em consideração a
capacidade contributiva de cada um, foi criado o sistema de alíquotas
progressivas.
O sistema
progressivo dispõe de várias alíquotas, onde cada uma incide sobre uma faixa de
rendimento. Independente do total do rendimento, as mesmas alíquotas vão
incidir igualmente em cada faixa.
A primeira
faixa possui alíquota zero, ou seja, isenção do pagamento de impostos. Essa
faixa vai até um valor que permita uma pessoa e sua família, viver. Digamos que
fosse mil reais. Logo, todo rendimento até mil reais seria isento de imposto de
renda.
Todo o
rendimento de X está nessa faixa. Não se realizaria nenhum desconto de imposto
de renda e X poderia dispor de todo o seu rendimento para passar o mês.
Da mesma
forma, Y e Z também são isentos. Dos dez mil que Y recebe, mil reais estariam
isentos. A tributação incidiria somente sobre os nove mil restantes. Da mesma
forma Z, que somente pagaria imposto sobre os noventa e nove mil restantes.
A faixa
seguinte, digamos que entre mil a quatro mil reais, a alíquota fosse de 5%.
Como X não tem rendimentos nessa faixa, essa alíquota não se aplicaria a ele.
Já Y pagaria, em relação a esta faixa, cento e cinquenta reais, correspondentes
a 5% de três mil reais. Z pagaria o mesmo valor.
Na próxima
faixa, ainda hipoteticamente, de quatro a dez mil reais, incidiria a alíquota
de 10%. Y pagaria seiscentos reais de imposto nessa faixa (10% de seis mil
reais), assim com Z também.
Os
rendimentos de Y já estão totalmente inscritos nessas faixas, de forma que
pagaria, ao todo, setecentos e cinquenta reais de imposto (R$150,00 +
R$600,00). Já é possível, neste momento calcular a alíquota efetiva, que é a
porcentagem equivalente ao valor pago, calculado do valor total do rendimento.
No caso de Y, a alíquota efetiva é de 7,5% (R$ 750,00 equivale a 7,5% de R$10.000,00).
Já Z, ainda
teria que calcular o imposto a pagar mediante a diversas outras faixas, nas
quais a incidiria alíquotas progressivamente maiores.
Vamos
imaginar que na faixa entre noventa e cem mil, a alíquota fosse de 50%. Destes
dez mil reais, Z pagaria cinco mil de imposto e ficaria com cinco mil. É muito?
É muito, mas são os dez mil do final do seu monte. Abaixo desta faixa, estão
mais noventa mil, aos quais incidiram alíquotas menores, desde zero, cinco dez,
quinze, vinte, etc.
E porque no
Brasil não funciona? Porque aqui a progressividade é só faz de conta. Existe só
para constar. A reiterada falta de correção da tabela e a limitada
progressividade tornam os objetivos do sistema praticamente inócuos.
Existem
hoje, cinco faixas de rendimentos, sujeitos a cinco alíquotas. São isentos os
rendimentos mensais até R$1.787,77. Quem recebe até esse valor não paga nada de
imposto de renda.
De 1.787,78
até 2.679,29 a alíquota é de 7,5%. Até esse limite paga-se R$ 66,86 de imposto.
Nas próximas faixas as alíquotas se elevam, até chegar em 27,5% na derradeira
qunta e última faixa, que corresponde aos rendimentos superiores a... quatro
mil e poucos reais.
Isso mesmo.
Para o governo, quem tem rendimento acima de RS4.463,81 já possui a máxima
capacidade contributiva, está no topo da pirâmide. Qualquer valor acima deste
limite já possui o mesmo grau de “desnecessidade”.
Para o
governo, uma nota de cem reais, no alto de um monte de cinco mil reais mensais
tem a mesma importância que num monte de cem mil reais. Quem recebe cinco mil
reais mensais já possui o suficiente para dispor de sua renda da mesma forma
que qualquer outro milionário. Merece o mesmo tratamento que os altos
executivos e os famosos jogadores de futebol.
Se o Brasil
fosse um país sério, neste valor deveria incidir a primeira alíquota, no máximo
na segunda. Jamais a última!
Ao calcular
o valor da alíquota efetiva - percentual equivalente ao imposto para
determinado rendimento - é possível observar como no Brasil a progressividade
não serve para nada, a não ser contribuir para a péssima distribuição de renda.
O gráfico
abaixo, ao comparar a alíquota efetiva equivalente a cada rendimento, deixa
claro o descabimento dos valores de cada faixa da tabela progressiva
instituída:
Do fim da
faixa de isenção até o valor onde inicia a aplicação da maior alíquota
existente – os tais quatro mil quinhentos e poucos reais, a elevação da tarifa
efetiva apresenta uma curva com elevação vertiginosa. A partir daí, a
progressividade já apresenta sinais de amenização. Para os rendimentos acima de
dez mil reais, a curva já se envergou de tal forma que o intuito da da
progressividade já se esvaiu completamente. Para rendimentos acima de vinte mil
reais toda aquela ideia de capacidade contributiva nem existe.
Obviamente,
uma tabela que levasse em consideração a realidade do país e dos rendimentos
auferidos, que não pretendesse simplesmente sugar ao máximo a classe média,
resultaria em faixas bem mais distribuídas e com alíquotas que efetivamente
proporcionasse progressividade.
A chance
disso ocorrer?
